Nos últimos anos, os
percevejos têm provocado grandes prejuízos em todas as regiões produtoras de
grãos no Brasil. Ao não manejar essa espécie corretamente, os produtores sofrem
impactos econômicos que muitas vezes são estendidos para economia do país.
Conhecer esses insetos
e a forma mais adequada para manejá-los é a melhor iniciativa que produtores e
profissionais do campo podem adotar para seguirem suas atividades de forma
sustentável.
Por isso, nós listamos para você os percevejos mais importantes da cultura do milho e de soja.
Percevejo marrom – Euschistus
heros
O Euschistus, também
conhecido como percevejo-marrom,
Nas lavouras de soja, sua presença fica mais notável a partir das fases reprodutivas iniciais. Neste período danos nas vagens e grãos começam a ocorrer, seguindo até a senescência das plantas, quando os percevejos migram para outras lavouras de soja, para a cultura subsequente ou para plantas hospedeiras.
Euschistus heros
Tecidos da semente ou grão ficam praticamente chocos e enrugados quando são atacados diretamente por esse percevejo. Com esse ataque, ocorre a perda de massa e qualidade do grão, além da inviabilização de sua comercialização como semente. Os ataques ainda podem causar distúrbios no metabolismo das plantas, dificultando o amadurecimento no momento da colheita.
Ovos de Euschistus heros
Quando manejar?
Níveis de controle recomendados para
soja:
– 2 percevejos adultos ou ninfas, a
partir do 3º ínstar, por metro linear em lavouras comerciais.
– 1 percevejo por metro linear para
campos de produção de sementes.
Recomendação em lavouras de milho:
– Em lavouras onde ocorrerá plantio
de milho safrinha, o ideal é iniciar o manejo antecipadamente, ainda na cultura
da soja.
– No decorrer do desenvolvimento da
cultura, o controle é feito a partir do surgimento dos primeiros indivíduos.
Vale lembrar que insetos menores são mais fáceis de manejar!
Como?
– Existem poucas alternativas para o
manejo de percevejo marrom. Os grupos mais efetivos são os organofosforados e
os neonicotinoides, que atuam de diferentes formas. O metarhizium, beauveria
bassiana e produtos fisiológicos também podem ser associados e incluídos num
Manejo integrado de Pragas quando utilizados de forma adequada.
Biotecnologia
–
No campo da Biotecnologia, o RNAi e o uso de CRISPR são as promessas de
produtos sustentáveis para o manejo das lavouras. Estas tecnologias, que
surgiram na década de 1990, estão sendo
redimensionadas de forma muito interessante para o setor agrícola.
Percevejo barriga-verde – Dichelops sp.
Há
duas espécies muito semelhantes de percevejos, conhecidas por barriga-verde: Dichelops furcatus e Dichelops melacanthus. O Dichelops sp. é uma praga inicial,
considerada importante para as culturas de milho e trigo.
Em lavouras de milho, os adultos e
as ninfas introduzem seus estiletes através da bainha até as folhas internas
das plântulas. O ataque causa lesões que provocam deformações, perfilhamento
intenso, e tornam as plantas improdutivas.
Isso acontece porque, no ato desta “picada”, o inseto contamina as plântulas. Sob altas populações, o número de picadas acarreta na morte da planta.
Dichelops sp
Considerações para um bom manejo da espécie
– O uso de produtos biológicos no
manejo das areas de plantio podem ajudar a reduzir o número de indivíduos
adultos até a instalação da cultura. A maior dificuldade neste processo é o
tempo entre a infecção e o manejo, que varia de 1 a 2 dias, e de 5 a 12 dias,
respectivamente.
– O nível de infestação antes do
plantio deve ser observado. Esta avaliação deve começar antes da colheita da soja e prosseguir até o
enceramento da colheita. O campo deve ser monitorado e o número de insetos
residentes por metro quadrado deve ser contabilizado. Ao identificar focos de
percevejos na palhada o uso de produtos de amplo espectro e contato pode ser
uma excelente alternativa para reduzir a população inicial com menor custo.
– O tratamento de sementes é
fundamental para o manejo desta praga. Esse método requer que o inseto faça a
”picada de prova” para ser controlado ainda na fase inicial da lavoura.
– Monitorar a cada 3 dias. Ao
identificar um inseto por m2 nas plantas durante a emergência do milho, deve
ser realizada uma aplicação de inseticida para reduzir a população ou eliminar
as sobras do manejo pré-plantio.
– Produtos biológicos são uma nova opção de manejo dessa praga e devem ser integrados na estratégia de produtos químicos. As opções mais recomendadas são os microhimenópteros do gênero Trissolcus. Desta forma, a eficiência e os danos causados pelo percevejo barriga-verde tendem a ser reduzidos.
Danos de percevejos
Solução da Pragas.com
Hoje a Pragas.com fornece em seu portfólio ovos inviabilizados de Euschistus
heroscomo solução para produção de
parasitoides de Telenomus podisi. Esse é um importante paço em direção a uma
agricultura cada vez mais sustentável, que consegue integrar no manejo de
pragas como os percevejos marrom e barriga-verde, o controle químico e o
biológico.
O Brasil é um
dos maiores produtores de grãos do mundo e o controle de insetos nas lavouras
é um grande desafio para os agricultores.
O
clima tropical quente e úmido, juntamente com o cultivo de duas ou mais safras
em um mesmo ano, faz com que as pragas tenham condições ambientais favoráveis
para se manterem em atividade no campo. Esse fator pode prejudicar muito a
produção e a economia do país se não for superado de maneira sustentável.
Tratando especificamente do
desenvolvimento das culturas de milho e soja, três lagartas são consideradas
como as principais pragas.
Conheça:
Lagarta-do-cartucho – Spodoptera frugiperda
FOCO: Milho.
A Lagarta-do-cartucho é uma das principais pragas do milho, ocorrendo também nas culturas de soja e algodão. Esta praga está presente em todas as américas e foi recentemente identificada no continente africano e na Ásia. Conhecida por atacar o cartucho do milho, esta espécie tem causado prejuízos em todos os estágios da cultura.
Spodoptera frugiperda
Ataques
O ataque
do inseto na base da planta durante a fase de estabelecimento da cultura,
inviabiliza o desenvolvimento da mesma, contabilizando falhas de estande.
Quando ataca o cartucho e consegue se estabelecer nas espigas, a lagarta causa
redução de produtividade e impacta na qualidade dos grãos.
Danos
como esses podem gerar cerca de 40% de perdas em produtividade da lavoura de
milho.
Como manejar de forma sustentável?
– Dessecação antecipada Para eliminar ponte-verde ou fontes de alimento do inseto.
– Monitoramento antes do plantio
Ao identificar a praga, utilize
inseticidas para realizar o manejo.
– Tratamento de sementes
É essencial para proteger a cultura durante as fases iniciais.
– Biotecnologia
O uso dessa ferramenta auxilia e aumenta a eficácia do manejo à campo.
– Monitoramento durante o desenvolvimento da cultura
Sempre monitore e aplique inseticida
quando 20% das plantas apresentarem raspagens.
– Rotação de produtos químicos
Ao utilizar inseticidas, a rotação de produtos evita a seleção de pragas
resistentes e ajudar a preservar a longevidade e eficácia das moléculas.
– Ferramentas complementares
O uso de feromônio, produtos
fisiológicos e biológicos, são práticas que devem complementar e integrar um
manejo mais sustentável..
– Faça refúgio
A adoção de refúgio é indispensável para o manejo de resistência da
lagarta-do-cartucho em plantas Bt.
Inicialmente,
a Lagarta-da-soja se comporta como a lagarta-mede-palmos, por não apresentar as
patas abdominais desenvolvidas completamente. De acordo com seu crescimento,
ela muda de hábito e não faz mais o movimento de “mede palmo”. Ela apresenta
quatro pares de falsas pernas abdominais, o que a diferencia da Chrysodeixis
includens, que possui apenas dois pares de falsas pernas.
Essa praga possui uma dinâmica populacional intensa. Em fases vegetativas, chegam a uma média de 400 ovos por postura.
Anticarsia gemmatalis
O
ataque da lagarta-da-soja é caracterizado pelo consumo de todo o limbo foliar,
inclusive as nervuras. Se não for controlada no momento correto, a desfolha
pode chegar a 100% em um curto período de tempo. Ela causa infestações
precoces, nas fases V3 e V4, nos cerrados. Pode causar infestações tardias,
entre as fases V6 a V8, principalmente no Rio Grande do Sul e Paraná.
Como manejar?
Apesar
de as recomendações de manejo adotarem números de 40 lagartas grandes -maiores
que 1,5 cm – por pano-de-batida, o agricultor não pode esperar o inseto chegar
a este ponto. Considerando que o manejo
sempre será mais eficiente com lagartas pequenas, o uso de produtos biológicos
e fisiológicos em lagartas grandes não são efetivos.
Utilizando Controle Biológico
Para
manejo com Baculovírus, é importante
considerar como alvo as lagartas pequenas. Produtos como este, requerem tempo
para agir e o estádio da espécie é crítico para sua eficácia. O monitoramento 3
dias após a aplicação deve ser mantido para verificar o resultado da aplicação.
Após
este período se ainda houver lagartas em tamanhos maiores, produtos de outras
classes devem ser utilizados para reduzir a infestação e evitar perdas de
produtividade. A lagarta-da-soja é uma praga considerada de fácil controle com
inseticidas dos grupos químicos organofosforados, piretroides, e fisiologicos
O
controle biológico com inimigos naturais predadores de lagartas, como Calosoma spp, Lebia spp, Podisus spp. e
parasitoides como o Trichogramma spp.,
também são alternativas no Manejo Integrado de Pragas.
Biotecnologia
A soja Bt (Bacillus thuringiensis) tem eficácia comprovada no manejo desta espécie, assim como inseticidas de mesma base. A tecnologia Intacta RR2 PRO controla a lagarta-da-soja por meio da proteína Cry1Ac. É importante lembrar que para que seja mantida a eficácia dessa ferramenta, a adoção de refúgio é fundamental. Reforçamos também que utilizar inseticidas à base de Bt em áreas de refúgio não é uma boa prática.
A
Lagarta-falsa-medideira é uma espécie desfolhadora, que não se alimenta das
nervuras das plantas e acaba deixando um aspecto característico na folha – um
rendilhado. É fácil reconhecê-la no campo, pois seu hábito de se deslocar
dobrando o corpo como se estivesse medindo palmos é muito específico.
A fase lagarta do inseto dura de 13 a 20 dias. Nesse período, a praga pode consumir de 64 a 200 cm² de folha, ou seja: uma lagarta é capaz de consumir metade de uma planta de soja durante sua vida. As fêmeas dessa espécie vivem cerca de 15 dias e são capazes de ovipositar aproximadamente 700 ovos.
Chrysodeixis includens
Quando
está em estágio inicial, essa lagarta prefere atacar o terço inferior de
plantas de soja e algodão. Em maior tamanho, a falsa-medideira é menos
exigente, o que dificulta seu manejo, e neste caso, a tecnologia de aplicação
faz toda a diferença.
Quando manejar?
Ao
identificar as primeiras ocorrências de lagartas na lavoura o ideal é iniciar o
manejo. O agricultor precisa estar preparado para realizar o manejo no início
das infestações por vários motivos, entre eles:
– Lagartas pequenas são mais
sensíveis aos produtos.
– O manejo inicial é mais eficiente utilizando doses adequadas.
– Em alguns casos, o atraso de 5
dias no manejo pode resultar em perdas significativas de produtividade.
Como?
Controle biológico
Condições
de chuva favorecem o manejo da C. includens
por conta dapresença de um
inimigo natural que causa sua morte – o fungo Nomuraea rileyi. Produtos biológicos e fisiológicos podem ser
utilizados em estágios iniciais da cultura, antes do fechamento das linhas e
quando as lagartas são pequenas. Em estágios L1 e L2 é possível obter ótimos
resultados. Vale lembrar que o uso excessivo de fungicidas nas lavouras reduz a
eficácia deste fungo no manejo de lepidópteros.
Controle químico
Realizar manejo químico quando for verificada a presença de
lagartas em no mínimo 3 batidas de pano em 10 pontos amostrais. Presente em
todo o ciclo da soja, a praga atinge picos populacionais no período reprodutivo
da cultura. Por isso é recomendado o monitoramento constante das lavouras.
Biotecnologia
A soja transgênica, que expressa a proteína Cry1AC, proveniente da bactéria Bacilus thuringiensis (Bt), é resistente
a C. includens e exerce poder
inseticida. Até o presente momento, essa ferramenta tem demonstrado eficácia no
campo, mas é importante ressaltar que o refúgio estruturado e o monitoramento
constante são peças chaves para manter esta tecnologia funcionando.
Conte com a Pragas.com
Para promover uma agricultura cada vez mais
sustentável, a Pragas.com desenvolveu um portfólio de organismos alvo composto
por todas as lagartas citadas no artigo e mais insetos. Nosso objetivo é
fornecer insumos para que o mercado consiga aperfeiçoar cada vez mais o
trabalho de manejo no campo, acelerando a descoberta de novas soluções para
auxiliar o trabalho do agricultor.
Desde que os eventos biotecnológicos
passaram a fazer parte da vida do agricultor, a atenção do mercado se voltou
para duas coisas: a eficiência e a longevidade dessas tecnologias. A
importância dessa ferramenta se revela em números. Segundo estudo divulgado
pelo CiB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia) em janeiro, de 2005 até 2018, as sementes de algodão, milho e soja resistentes a insetos
disponibilizadas no país renderam um lucro adicional de R$ 21,5 bilhões para os agricultores.
“As plantas Bt são desenvolvidas por
meio da biotecnologia para serem capazes de resistir a determinados
insetos-praga. Para que as plantas apresentem essa resistência, foi inserido em
seu DNA um gene que expressa uma proteína tóxica para alguns insetos como
lagartas, besouros, moscas etc. Essa inserção, entretanto, não tem efeito sobre
outros organismos e nem sobre o ser humano”.
(CiB)
O Conselho também aponta uma
projeção interessante: daqui 10
anos, o lucro acumulado dos agricultores que utilizam a tecnologia Bt pode
alcançar R$70,5 bilhões. Além disso,
o relatório revela que os agricultores brasileiros podem perder R$86 bilhões em 10 anos caso não exista
mais biotecnologia eficaz disponível no mercado.
Foto: Lavoura de soja
De acordo com o Serviço
Internacional para Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia (ISAAA), o Brasil
é o segundo país que mais utiliza
transgênicos no mundo. Pesquisa divulgada pela organização em 2018 mostra
que o produtor brasileiro foi responsável pelo plantio de 50,2 milhões de hectares de plantas geneticamente modificadas em 2017. O número representa 26% da área plantada com transgênicos no
mundo.
Para que os agricultores continuem
usufruindo de todos os benefícios da biotecnologia em um cenário onde seu uso
tem aumentando constantemente, alguns gargalos precisam ser solucionados. Entre
eles, está o desenvolvimento de resistência
de insetos-praga ao Bt.
Como
insetos se tornam resistentes?
O Comitê de Peritos em Inseticidas
da Organização Mundial de Saúde definiu a resistência destes insetos como o desenvolvimento da capacidade de suportar
doses de inseticidas que seriam letais para uma população normal de organismos
da mesma espécie.
O fator crucial para o
desenvolvimento de resistência é a pressão
de seleção exercida por moléculas de inseticidas ou de biotecnologias que
expressam o Bt para manejar pragas. Ao permitir
que os insetos naturalmente resistentes
sobrevivam, enquanto insetos
suscetíveis são eliminados, a tecnologia em questão cria um ambiente onde
apenas insetos resistentes se reproduzem, originando gerações futuras de
insetos resistentes.
“Assim como
existem insetos suscetíveis à proteína Bt, há uma minoria que é naturalmente
resistente à ela. Se o produtor optar por plantar apenas sementes Bt, poderá
notar, inicialmente, um controle efetivo dos insetos. Contudo, a médio prazo,
essa escolha faz com que os indivíduos que são naturalmente resistentes à
proteína sejam selecionados e, com o passar do tempo, se tornem maioria”. (CiB)
Nesse contexto, qualquer
tecnologia de manejo de pragas que seja exposta de forma indiscriminada, sem o acompanhamento de práticas
complementares, pode perder a eficácia em pouco tempo de uso devido a
variabilidade genética dos insetos-praga.
Alerta
da resistência
A tecnologia transgênica Intacta RR2
Pro passou a ser testada nas lavouras brasileiras na safra de 2007/08. Lançada
oficialmente no mercado em 2010, a tecnologia que protege a planta de soja do
ataque de insetos-praga ao expressar a proteína Bt, ainda é um importante insumo para os agricultores.
Foto: Helicoverpa armigera
Até a safra 2017/18 a tecnologia seguia
entregando todo seu potencial – proteção contra a lagarta da soja (Anticarsia
gemmatalis), lagarta falsa medideira (Chrysodeixis includens e Rachiplusia nu), broca das axilas (Crocidosema
aporema) e lagarta das maçãs (Heliothis virescens) – além de
suprimir a lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus) e a
lagarta Helicoverpa armígera.
No entanto, naquele ano fora
registrado o primeiro sinal de alerta de
resistência à Intacta RR2 Pro no Brasil. Ataques
de Helicoverpa armigera foram constatados em lavouras de soja Bt na região do Chapadão do Céu, em Goiás. Na ocasião, a Fundação Chapadão em parceria com Instituto Phytus, realizaram uma série
de testes. A divulgação dos resultados indicou que o caso poderia se tratar de
um primeiro inseto resistente ao mecanismo de defesa expressado pela Intacta.
Apesar de as comunicações comerciais
do produto alertarem os usuários
desde o início sobre a importância do Manejo
Integrado de Pragas (MIP) associado ao uso de sementes com tecnologia Bt, a
realidade nos campos era diferente. Como consequência, o setor passou a olhar o
uso da biotecnologia com outros olhos, entendendo que é preciso preservá-la.
Diante desse cenário, um conceito de
extrema importância ganhou notoriedade. O Manejo
de Resistência de Insetos passou a integrar as práticas do agricultor com o
objetivo de promover a longevidade de importantes ferramentas de manejo de
pragas.
Conheça o MRI – Manejo de
Resistência de Insetos
O MRI é um conjunto de medidas que
podem ser adotadas para retardar a evolução da resistência de insetos às
proteínas Bt. É recomendado para promover a longevidade e eficácia das
tecnologias voltadas para as culturas de milho, soja e algodão. Entre as
principais práticas desse manejo, estão:
Adoção de refúgio estruturado de acordo com cada
cultura
Uso de inseticidas
alternativos, a base de moléculas
diferentes do Bt
Uso de controle biológico
Além disso, as Boas Práticas
Agronômicas (BPA) também devem ser realizadas no campo para potencializar o
MRI. Conheça algumas delas:
Dessecação antecipada
para controle de plantas daninhas e
voluntárias
Rotação de princípios ativos de inseticidas
Monitoramento da área após a aplicação de inseticidas
Rotação de culturas
Tratamento das sementes
A
Pragas.com
Nós acreditamos no papel da pesquisa
e do conhecimento para o desenvolvimento da agricultura Brasileira. Por isso,
apresentamos em nosso portfólio insumos biológicos, organismos alvos e
suprimentos de alta performance, que possibilitam a descoberta de soluções e
oportunidades para a indústria e para os agricultores.
O Brasil é líder mundial em controle biológico, com aplicação desse tipo de manejo em mais de 23 milhões de hectares e está exportando tecnologias da área para outros países. Alexandre de Sene Pinto, professor do Centro Universitário Moura Lacerda, de Ribeirão Preto (SP), destaca o pioneirismo brasileiro no ramo. “Toda a tecnologia que os outros países estão usando para grandes áreas está vindo do Brasil. O drone para liberação, as técnicas para quantificar os parasitoides, o momento e a frequência de liberação, tudo é brasileiro. Passamos a ser exportadores de tecnologia de controle biológico para campos abertos”, afirma.
Sene Pinto palestrou no 2º Curso de Controle Biológico de Pragas no Brasil, promovido pela Embrapa e pela Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), realizado entre os dias 27 a 29 de agosto na Embrapa Cerrados (DF). O evento reuniu 50 profissionais interessados nas novidades do mercado e em aperfeiçoar as técnicas de controle biológico de pragas para o setor agropecuário.
Mercado mundial cresce 9% ao ano, o brasileiro, 15%
De acordo com estimativa da empresa de consultoria Dunhan Trimmer, o mercado mundial de bioagentes movimentará em 2020 mais de US$ 5 bilhões, sendo mais de US$ 800 milhões na América Latina. E enquanto o mercado de biológicos do mundo está crescendo 9% ao ano, no País o aumento é de mais de 15%.
O professor aponta ainda as tendências mundiais para a área: adaptação de tecnologias na África; migração para sistemas de produção orgânica na Europa; investimentos da China para substituição de produtos químicos por biológicos; nos Estados Unidos, mudança nas empresas de químicos e instalação de filiais de empresas brasileiras.
Para chegar a esse ponto, a pesquisa científica continua sendo fundamental. Essa é a opinião de Marcelo Ayres, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Cerrados. Ele destaca que o controle biológico está no DNA do centro de pesquisa, que, desde sua criação, tem contribuído com o desenvolvimento de produtos para o controle das cigarrinhas da raiz e das pastagens, bem como de brocas.
Segundo o vice-presidente da Febrapdp no Distrito Federal, José Guilherme Brenner, a grande procura pelo curso é devido à busca de alternativas para a agricultura: “Isso reflete o atual momento. Vários players da agricultura brasileira estão unidos em torno desse ideal. Acredito que o controle biológico, que é uma tecnologia sustentável, tem um futuro muito grande pela frente”, acredita.
John Landers, vice-presidente honorário da Febrapdp, aponta paralelos entre o controle biológico no Brasil e o início da adoção do Sistema de Plantio Direto no País, destacando a necessidade de mudança de mentalidade dos produtores, já que não se trata de um controle químico. “É preciso auferir a força do controle natural, ver se é necessário introduzir um agente biológico e entender que não é algo imediato, porque você não vai ver insetos mortos no chão no dia seguinte. Você tem que prever o desenrolar da situação bem antes do ponto crítico para a lavoura”, explica.
A primeira forma de controle biológico relatada remonta ao século III antes de Cristo, na China. “É o método racional de controle de pragas mais antigo que se tem na humanidade”, destaca o professor do Centro Universitário Moura Lacerda, e agora ele é uma das bases da 4ª revolução agrícola, também chamada de “agricultura 4.0” ou “agricultura digital”. Alexandre Pinto completa: “O controle biológico passou a ser tecnologia com o advento de formulações para microrganismos e o uso tecnificado de macrorganismos, com a aplicação via drones em grandes áreas, em mesmo nível que os agroquímicos”.
Tratamento reduziu em 60% presença de falsa-medideira
Uma tendência apontada pelo professor é o uso de bioagentes no tratamento de sementes. Ele cita uma pesquisa com sementes de soja tratadas com os fungos B. bassiana, Metarhzium anisopliae e Isaria fumosorosea. Até 60 dias depois do tratamento, houve a diminuição de 60% de lagartas falsa-medideira, 30% de Helicoverpa armigera e 60% de mosca-branca na parte aérea, além da redução de 50% no consumo das folhas pelas pragas. Resultados semelhantes foram obtidos com hortaliças e feijoeiro. “A planta com sementes tratadas com qualquer desses microrganismos produz tanta peroxidase, que fica impalatável a essas pragas”, informa.
Outra tendência é o manejo externo, que utiliza bioagentes no entorno das áreas-alvo, o que diminui o custo do controle, já utilizado em citros para o controle do psilídeo e em desenvolvimento para o manejo-da-broca e do Sphenophorus sp. em cana-de-açúcar.
Mercado de ativos biológicos
Os prejuízos causados por insetos-praga são enormes. Uma área com 25 insetos por metro quadrado reduz a produção de pasto e afeta sua capacidade de suporte de animais. Um pasto saudável poderia suportar 6,65 animais por hectare. Quando atacado pela cigarrinha-da-pastagem, seu rendimento reduz para 4,65 animais. Ou seja, a cada dez dias, são produzidos 59 quilos a menos de carne no mesmo espaço. “Mas o fungo, quando aplicado, não fica na pastagem só por esse período. Seu efeito será sentido por mais tempo”, explica o pesquisador da Embrapa Cerrados, Roberto Alves, e coordenador do curso.
O mercado de micoinseticidas tem registrado grande crescimento. Para o controle da cigarrinha-da-pastagem, existem, 37 produtos registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) com Metarhizium anisopliae. Já para mosca-branca, cigarrinha-do-milho, broca-do-café, psilídeo do citrus, moleque-da-bananeira e outras pragas que podem ser combatidas com o fungo Beauveria bassiana, existem 26 produtos disponíveis no Brasil.
E existe tecnologia para atender outras culturas que hoje não têm opção de defensivos biológicos. “Já temos indicação de microrganismos capazes de controlar até 99% do percevejo-da-renda em seringueira. Mas como é um mercado pequeno [140 mil hectares], ainda não há empresas interessadas em produzir um defensivo biológico para essa cultura”, informa Alves.
A maior oferta de produtos reflete também a maior adesão a práticas sustentáveis pelos produtores rurais. “O aumento do uso do controle biológico ocorre porque hoje as pessoas estão buscando alimentos mais saudáveis, que sejam produzidos de forma sustentável, sem contaminar o meio ambiente, e os insumos biológicos oferecem isso”, explica o pesquisador.
Foto: Sebastião José de Araújo
Se depender dos participantes do curso, a procura por produtos biológicos deve crescer ainda mais. “Eu já vinha usando o biológico no tratamento de sementes. Esse curso abriu mais uma fronteira para mim, porque é uma coisa sustentável. Vou difundir bastante o que aprendi aqui. As pessoas precisam saber que o controle biológico não é utopia. Hoje saio daqui ciente que vou conseguir fazer esse trabalho”, afirma Armando Azevedo Romero, consultor que atua no estado de Goiás.
Outro fator que também justifica o crescimento da adoção do controle biológico é a resistência que as pragas desenvolvem aos produtos químicos disponíveis, que deixam de ser efetivos. Segundo levantamento apresentado pelo professor Alexandre Pinto, 29% dos produtores que utilizam o controle biológico o fazem por ineficácia dos agrotóxicos e transgênicos, e 26% devido ao surgimento de novas pragas.
Mas apesar de o Brasil ter registrado um crescimento de 70% na comercialização de insumos biológicos em 2018, em relação a 2017, os biodefensivos representam apenas 2% do mercado. Ou seja, 98% das vendas ainda é de defensivos químicos, conforme observa Alves.
Manejo Integrado de Pragas
O pesquisador Edson Hirose, da Embrapa Soja (PR), apresentou o Manejo Integrado de Pragas (MIP) como uma prática mais sustentável do ponto de vista econômico e ambiental para a produção brasileira. Hirose explica que um dos pilares do MIP é justamente a integração dos métodos de controle, como resistência de plantas (com o uso de transgenia), controle químico (buscando-se aplicar o produto no alvo e a reduzir a pressão de seleção) e controle biológico, conservando os inimigos naturais das pragas.
Os resultados do MIP são comprovados pela pesquisa. Um trabalho da Emater-PR, comparando o uso da estratégia com o manejo convencional (somente controle químico) em áreas com soja, mostroa que nas áreas com MIP, o custo de produção foi 1,9 sacas/ha inferior, sendo que as produtividades foram iguais. O mesmo trabalho foi realizado em Silvânia (GO), com resultado semelhante. Já em Mato Grosso, o custo com o MIP foi a metade do observado no controle convencional.
O pesquisador enfatiza que o MIP é basicamente conhecimento: “Fazer MIP depende de conhecimento, de ir ao campo, reconhecer a praga e decidir que não é preciso pulverizar. Isso vai fazer você ganhar em produtividade, reduzir seu custo e ter mais sustentabilidade”, afirma.
Sobre o futuro, o pesquisador defendeu que as práticas do manejo integrado serão facilitadas, mais rápidas e precisas a partir da convergência de tecnologias e da internet das coisas. Hirose cita exemplos de equipamentos com alta tecnologia embarcada, como monitoramento digital da mosca-branca em estufas para tomates; escaneamento dos talhões para identificação de pragas; armadilha para captura de pragas com GPS; câmara de vídeo que gera imagens em alta definição para a contagem de mariposas, que facilitarão a adoção do MIP.
Foto: Alberto Marsaro Júnior
Foco na mosca-branca
Tomate, soja, feijão, algodão, melão, melancia – mais de 70 culturas agrícolas podem ter grandes prejuízos causados pela mosca-branca. “Esse é inseto de difícil controle”, alerta a pesquisadora Eliane Dias Quintela, da Embrapa Arroz e Feijão. Por isso a importância de o produtor agir logo quando a praga começar a aparecer na lavoura. “Em regiões com 30°C, uma única fêmea, após três gerações de reprodução, gera insetos suficientes para cobrir uma quadra de tênis inteira”, ressalta. A especialista alerta que nem os defensivos químicos conseguem um ótimo resultado em relação ao inseto adulto.
Eliane apresentou resultados de experimentos que mostraram maior eficiência quando foram associados o controle biológico e o químico. No caso da mosca-branca, chegou-se a 100% de mortalidade dos insetos, sendo que 55% das mortes foram ocasionadas por parasitismo natural, ou seja, pela atuação do fungo. “Em nenhum dos experimentos o uso de apenas inseticidas teve melhor resultado do que o uso do fungo associado ao inseticida. Essa é uma opção que o produtor deve considerar”, destaca a pesquisadora.
Outra novidade foi anunciada aos participantes presentes no curso. A pesquisa isolou diversos fungos e selecionou aquele com maior resistência a altas temperaturas, facilidade de reprodução e virulência. A especialista completa: “Chegamos ao fungo Isaria javanica, que apresentou o melhor resultado quanto a essas características. Já desenvolvemos um produto com esse microrganismo, que está em fase de registro. Uma única aplicação do I. javanica equivale a três com o Beauveria bassiana [o fungo hoje utilizado no controle da mosca-branca]”.
A pesquisadora explica ainda que, na sua opinião, usar parasitoides é o melhor e mais barato tipo de controle de pragas. São inimigos naturais que já existem na natureza. “Basta manejar o ambiente para favorecer sua reprodução e já existem recomendações para isso”, finaliza.
Manejo e controle da cigarrinha-do-milho
Apesar de estarem presentes no Brasil desde a década de 1970, nas últimas safras, as doenças do milho denominadas enfezamentos têm se agravado e causado danos expressivos. “Em surtos epidêmicos, a quebra de produção pode chegar a 70%”, afirma o pesquisador da Embrapa, Charles Oliveira. Uma planta infectada produz espigas pequenas com reduzida quantidade de sementes e com qualidade comprometida.
A cigarrinha-do-milho é o único inseto que transmite os patógenos causadores dessas doenças vasculares e sistêmicas: o espiroplasma, que causa o enfezamento pálido; e o fitoplasma, que causa o enfezamento vermelho. Elas provocam uma desordem fisiológica nas plantas, para as quais não existem medidas curativas. Dessa forma, os produtores devem ficar atentos às orientações de manejo para que a ocorrência dos enfezamentos nas lavouras de milho possa ser minimizada. “Nenhuma medida tomada de forma isolada será eficaz e tampouco 100% eficiente”, alerta o especialista.
O manejo dessas doenças pode ser feito tanto com foco no inseto-vetor quanto nas doenças em si. No primeiro caso, o controle pode ser direto, com a utilização de inseticidas – químicos ou biológicos. Segundo o pesquisador, existem no mercado 24 produtos registrados no Mapa para o manejo do inseto-vetor, sendo cinco biológicos. Um deles é a Beauveria bassiana (bioinseticida fúngico). Outros estudos, no entanto, estão sendo conduzidos para o desenvolvimento de novos produtos utilizando parasitoides dos ovos da cigarrinha, como conta Oliveira.
Em estudos recentes foram observadas populações da cigarrinha-do-milho em outras espécies de gramíneas – até então se acreditava que o milho era a única planta hospedeira. Oliveira antecipa que agora pesquisas deverão ser conduzidas para saber como eliminar as cigarrinha que ficam nesses hospedeiros alternativos. (Assista aqui ao vídeo sobre os enfezamentos do milho)
Sobre vírus e bactérias
A bactéria Bacillus thuringienses (Bt) é um dos agentes de controle biológico mais utilizados no mundo. No Brasil, há cerca de 20 produtos biológicos registrados que possuem Bt em sua formulação. De acordo com a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Rose Monnerat, uma das grandes vantagens desse microrganismo no controle de insetos é que ele é inofensivo ao homem, assim como aos animais domésticos e aos insetos benéficos.
Por outro lado, quando comparado a um produto químico, o Bt possui ação mais lenta, já que o inseto precisa comer a bactéria para se intoxicar e morrer. A pesquisadora chama atenção para os cuidados que se deve ter na produção desses microrganismos, na chamada produção “on farm”, quando os produtores fabricam dentro das fazendas caldos fermentados contendo Bt. Essa forma caseira de fabricação aumentou de forma considerável nos últimos anos.
Em relação ao uso de vírus no controle de insetos-praga, o pesquisador da Embrapa Soja, Daniel Gomez, explica que cada um atinge uma praga-chave: “Eles, em geral, são específicos de cada espécie, o vírus da falsa-medideira (lagarta-da-soja) infecta apenas esse tipo de lagarta”.
Dentre as vantagens de se utilizar vírus no combate aos insetos-praga, Gomez destaca a eficiência, seletividade, estabilidade dos produtos, que podem ser conservados sob baixas temperaturas por longos períodos de tempo, custo reduzido, quando o inseto é fácil de se criar, e persistência por multiplicação do inóculo. Sobre essa questão, o especialista explica a vantagem do biodenfesivo: “Como o depósito natural dos vírus é o solo, quando em várias safras seguidas o produtor se utiliza deles, eles acabam se depositando no solo. Assim, podem infectar lagartas na safra seguinte sem necessidade de reaplicação”.
Vitor Tinazo, sócio-diretor da empresa Agro TNZ, que produz grãos em Anápolis (GO), confirma o efeito residual dos produtos biológicos. “Eu me formei em 2009 e achei que nunca ia usar isso aí. Hoje é o que eu mais uso na lavoura. Reduzi demais o inseticida e agora estou tentando reduzir fungicida. Percebi que nossa produção está mais resiliente a diferentes doenças. Quando elas ocorrem, parece que vêm com menor severidade, que a lavoura tem mais equilíbrio”, informa.
Preço e eficiência têm levado agricultores a fabricar pesticidas naturais nas fazendas, mas é preciso tomar alguns cuidados
A ABCBio engloba 23 empresas do setor – sejam químicas ou apenas biológicas. De acordo com a associação, a queda nas vendas de agrotóxicos pode ser atribuída à diminuição de lançamentos pela indústria, à resistência de pragas e doenças às moléculas químicas, à pressão pelo menor uso de agrotóxicos em culturas alimentícias e às novas tecnologias, como a biotecnologia de sementes, além dos próprios biodefensivos.
Uma pesquisa realizada pela ABCBio em parceria com a consultoria Informa Economics FNP revelou que, de 2016 para 2017, o uso de biodefensivos aumentou 25% por hectare no Brasil. O estudo aponta que usuários apostam no crescimento da demanda nos próximos anos.
Segundo a entidade, além dos produtos registrados no Ministério da Agricultura, o mercado de biológicos é composto por biodefensivos sem registro, biodefensivos registrados como fertilizantes e biodefensivos caseiros.
O Ministério da Agricultura (Mapa) diz não ter como regulamentar a produção on farm. De acordo com o diretor de insumos agrícolas da pasta, André Peralta, o problema é que não há critérios mínimos estabelecidos para a fabricação. “Devem existir regras, padrões mínimos, mas não cabe ao ministério legislar sobre uso próprio”, diz, lembrando que a Embrapa vem trabalhando na padronização.
O presidente da ABCBio, Gustavo Hermann, lembra que o mercado nasceu na informalidade. Por isso surgiu a associação, em 2007. Para se associar, a empresa precisa ter registrado ao menos um produto biológico como defensivo. “Existem outros biológicos no mercado, como inoculantes, que são bactérias fixadoras de nitrogênio. Ou seja, são organismos biológicos, mas não são de controle”, diz.
Registrar um biodefensivo requer o mesmo padrão de um químico, com apresentação de análises toxicológicas e laudos de eficiência agronômica. “É tão burocrático e custoso para as empresas quanto o registro do defensivo tradicional. Temos algumas vantagens porque a maioria dos produtos são de baixa toxicidade. Por se tratar de um produto mais natural, há etapas que conseguimos pular.”
Outra vantagem, segundo a associação, é que os biodefensivos são registrados de acordo com as pragas, e não para determinada cultura agrícola, como acontece no caso dos agroquímicos. Assim, os biológicos podem ser aplicados em qualquer cultivo. Até julho de 2018, existiam 168 registros de biodefensivos no Mapa. Em 2006, havia apenas um.
Nesse cenário de crescimento, o interesse dos produtores pelos biológicos preocupa a indústria. A ABCBio diz que, não raramente, o agricultor é enganado por fornecedores de produtos que prometem controlar pragas ou patógenos nas lavouras, mas que, na verdade, foram registrados como fertilizantes. “É um desvio de uso”, afirma Gustavo, alegando que a legislação para o registro de defensivos é mais complexa, demorada e cara do que a norma para adubos.
A indústria não se diz contrária à produção caseira, mas explica que há empresas que vendem “kits” para a formulação de biodefensivos nas fazendas, prática que tem conquistado produtores de culturas como grãos, cana e hortifrútis. “A produção caseira é facultada ao agricultor, mas é obrigação da indústria alertar seus clientes finais sobre o uso”, diz Gustavo.
Em setembro do ano passado, a entidade enviou uma consulta ao Mapa sobre a fiscalização desses produtos, mas não teve resposta. Agora, a ABCBio está conversando com o Ministério Público Federal, fim de conter a produção em larga escala sem regulamentação e encaminhar recomendações aos órgãos federais sobre a necessidade de cumprimento da legislação que as empresas são obrigadas a seguir.
“O maior problema é a pirataria. Os agricultores compram produtos registrados para multiplicar as bactérias nas fazendas. Queremos o posicionamento dos órgãos sobre o cumprimento e a fiscalização das leis, seja do produtor, seja da indústria. Se houver um problema, a conta vai sobrar para os biológicos”, afirma Gustavo Hermann.
O produtor de Mato Grosso ouvido pela reportagem diz já ter recebido visitas de representantes de empresas de biodefensivos que dão “orientação fraca” sobre os produtos. Mas ele acredita que as grandes companhias do setor estão fazendo um lobby para a proibição da multiplicação on farm. “Está se tornando um problema.” Segundo ele, a produção reduz muito o custo dos produtores com defensivos. Em seus cálculos, diz que a diminuição pode ser de 80%.
Ciente desse cenário, a Embrapa vem ministrando cursos, dando assistência técnica e, recentemente, finalizou um manual sobre o controle de qualidade e orientação para a produção on farm. Segundo a pesquisadora Rose Monerat, presidente do portfólio de controle biológico da Embrapa, a publicação nasceu a partir de um curso realizado no ano passado. “É um manual para produzir uma bactéria, a Bacillus thuringiensis, utilizada para matar lagartas. O mercado de biológicos cresce a taxas de 17% a 20% ao ano e queremos que ele se expanda mais e com qualidade”, afirma. Foi a resistência das lagartas aos agroquímicos que despertou a atenção dos produtores para novos insumos. “No início, a produção nas fazendas era bastante rudimentar, no entanto, o produtor começou a ver o valor do controle biológico”, diz Rose.
O curso do ano passado surgiu quando a pesquisadora viu que muitos agricultores estavam fabricando biodefensivos de qualquer jeito. Rose explica que os produtores sabem os riscos de produzir microrganismos em condições precárias. “Eles estão se profissionalizando para fazer da forma correta, porém, há muita gente fazendo errado”, diz, lembrando que a produção nas propriedades requer uma estrutura mínima.
“No laboratório, esterilizamos tudo, inoculamos a bactéria e deixamos ela crescer. Fazemos o controle de qualidade para ter certeza de que apenas ela cresce. Se você joga uma bactéria numa caixa d’água aberta, sem higiene e sem esterilização, você vai fazer crescer essa bactéria e várias outras. No final, nesses contaminantes, você pode ter organismos indesejados”, alerta a pesquisadora.
Ainda assim, Rose diz que os produtores estão protegidos pela lei. “Se pegarmos ao pé da letra, o produtor que está fazendo na caixa d’água está amparado. Isso não é competência da pesquisa, mas gostaríamos que houvesse regras. Assim poderíamos assegurar a qualidade do produto.”
Para Rose, se seguir à risca as orientações propostas e fizer um bom controle de qualidade, o produtor pode ter segurança. “Ele terá praticamente uma fábrica na fazenda. Pode até registrar o produto, se quiser. A ideia é que isso seja feito de modo profissional.”
A pesquisadora ainda lembra que defensivos biológicos devem ser usados dentro de um programa de manejo integrado de pragas. Trabalhando há 29 anos na Embrapa, Rose diz que nunca viu os agricultores tão empenhados em encontrar soluções alternativas para o combate às pragas. “Eles estão vendo que a quantidade de químicos que estavam usando não está dando certo. Não adianta ficar esperando que as coisas vão acontecer sem fazer nada de modo natural. Acho que a sociedade também está demandando isso. Depois que experimentaram e viram que está funcionando, tem muita gente criando coragem para usar agentes de controle biológico.”
(Reportagem publicada originalmente na edição nº 396 de Globo Rural, em outubro de 2018.)
Fotos: Rogerio Albuquerque; Fabiano Accorsi; Adriano Machado; José Medeiros e Adriano Machado
De acordo com a consultoria, os estados mais afetados são Paraná e Mato Grosso do Sul, mas situação atinge outras regiões do Brasil
Em Mato Grosso, a colheita d asoja já começou em algumas áreas (Foto: Ernesto de Souza/ Ed. Globo)
Otempo mais quente e seco ameaça a produtividade das lavouras de soja semeadas mais cedo e traz preocupação para os produtores. Nessas áreas, a fase já é de enchimento dos grãos. Já nas plantações mais tardias, onde ainda há chance de recuperação, a “esperança” dos produtores está nas boas chuvas previstas para a semana do Natal, avalia a consultoria AgRural.
Os estados mais afetados são Paraná e Mato Grosso do Sul, que nesta semana continuaram castigados pelo calor e receberam chuvas insuficientes e com distribuição muito irregular. Lavouras semeadas mais cedo e que estão em fase final de enchimento de grãos, porém, já têm danos irreversíveis nos dois estados”, destaca a AgRural, em nota divulgada nesta sexta-feira (21/12).
O plantio da safra de soja 2018/2019 já está praticamente finalizado no Brasil. Ainda conforme os consultores, o impacto desses danos em algumas regiões sobre a produtividade total da safra só poderá ser estimado em janeiro, depois do período de chuvas previsto para os últimos dias deste ano.
No sul de Mato Grosso, por exemplo, algumas áreas não recebem chuva há pelo menos 15 dias, informa a consultoria. Nas áreas a oeste e no médio-norte, onde se concentra a maior parte da soja produzida no Estado, a colheita já começou em alguns locais de lavoura mais precoce. Nas mais tardias, ainda é preciso umidade para um bom rendimento.
“Outros pontos do país também sentem os efeitos negativos do calor e da falta de chuva. Mas a preocupação ainda não é tão grande porque, dependendo do caso, ou as lavouras ainda estão em desenvolvimento vegetativo ou início de floração, ou o solo ainda possui boas reservas hídricas ou há volumes significativos de chuva previstos para as próximas duas semanas”, diz a AgRural.
Um dos principais objetivos da sociedade moderna é a superação do modelo de desenvolvimento dependente de recursos não-renováveis, gerador de poluição, de impactos negativos no clima, no bem-estar e na saúde das pessoas. A busca pela sustentabilidade, que mobiliza países, instituições e pessoas em todo o globo faz emergir com força uma nova vertente econômica – a bioeconomia – focada em indústrias e negócios de base biológica que respondam aos anseios de uma sociedade que exige cada vez mais produtos e processos seguros, limpos e de baixo impacto ambiental.
Esse movimento terá profundo impacto na agricultura do futuro. Já vemos avançar a demanda por ‘insumos biológicos’ derivados de microorganismos, extratos vegetais e outros componentes naturais ou orgânicos, como pesticidas naturais para controle de pragas e como estimulantes biológicos capazes de promover crescimento e maior eficiência na absorção de nutrientes pelas plantas, dentre muitos outros usos. Um grande apelo dos insumos biológicos é a sua especificidade para o alvo pretendido e o baixo impacto em organismos não-alvo, o que leva a baixo risco de resistência e um baixo impacto ambiental.
O Brasil, por ser o país com a maior diversidade biológica do planeta, pode participar com grande vantagem desse mercado emergente. A nossa biodiversidade é reserva quase ilimitada de insetos, bactérias, fungos, nematóides, protozoários e vírus, além de imensa gama de compostos naturais como reguladores de crescimento, ácidos orgânicos, feromônios, etc. Na riqueza biológica dos solos tropicais estão microorganismos capazes de controlar patógenos de plantas, promover o crescimento radicular, aumentar a eficiência na absorção e uso de nutrientes, degradar contaminantes do solo, dentre muitas outras funções de interesse.
Antes de serem considerados solução definitiva e imediata para todos os problemas da agricultura, os insumos biológicos são hoje componentes importantes na evolução de uma agricultura sistêmica, integrada e sustentável. Nós ainda dependeremos, por algum tempo, das soluções convencionais para fertilização e proteção das nossas lavouras, mas com a evolução tecnológica e a ampliação do conhecimento sobre sistemas biológicos, a disponibilidade de alternativas cada vez mais completas e eficientes crescerá, até mesmo em função das crescentes dificuldades e custos no campo regulatório, o que dará aos insumos biológicos amplas vantagens no futuro.
Artigo originalmente publicado no jornal Zero Hora no dia 14 de setembro de 2018.
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